O Sínodo e o Espírito Santo
Postado 29/07/2026 14H26
O Sínodo e o Espírito Santo
Pe. Matias Soares
A Arquidiocese de Natal está celebrando e
vivendo o seu primeiro Sínodo. É desejo e orientação pastoral do nosso
Arcebispo Metropolitano, Dom João Santos Cardoso. Esse é um acontecimento que
pode renovar as esperanças no avanço pastoral das nossas comunidades eclesiais,
com o olhar atento às alegrias e às angústias do homem de hoje (cf. GS, 1),
sendo ele um momento para aprofundarmos a nossa “caminhada conjunta”. A nossa
Igreja tem que assumir o que já fora preocupação do Concílio Vaticano II. Ela
pensa a sua identidade mais profunda – Lumen Gentium – para poder dialogar com
o mundo e suas transformações permanentes – Gaudium et Spes. O que a Igreja
Particular de Natal está realizando precisa ser uma oportunidade de abertura
aos sinais do Espírito Santo nos nossos dias. Há a urgência de ouvir o que Ele
– O Espírito Santo – diz à nossa Igreja (cf. Ap. 2-3). Só com o seu
protagonismo, podemos falar num autêntico “aggiornamento” – atualização – das
nossas percepções, atitudes e estruturas pastorais. O sínodo não pode ser um
acontecimento simplesmente burocrático. À luz da “Praedicate Evangelium” a
Cúria arquidiocesana também precisa ser reformada nos seus procedimentos.
Precisa ‘sair’ mais para as fronteiras eclesiais e sociais. Esse documento deve
ser recepcionado por nós. Por mais que as questões sacramentais, disciplinares
e administrativas sejam importantes, o que está em questão é a leitura e o
discernimento dos sinais dos tempos, com a inserção da ‘alegria do evangelho na
história e na nossa casa comum, através do nosso testemunho e das nossas
palavras, como discípulos e missionários do Único mestre e senhor.
Num artigo, de relevância para o contexto do
Concílio Vaticano II, o teólogo Karl Rahner afirmou que “na consciência de sua
fé, a Igreja sabe que o Espírito faz parte dela e que ele lhe é insubstituível.
A Igreja ensina expressamente que dela fazem parte não apenas o ministério, a
instituição, a tradição, as normas imutáveis, o planejado, o previsível. Ela
sabe que o inesperado e o imprevisível de sua história não se resumem às
situações imponderáveis que lhe advêm de fora e consegue levar a bom termo aplicando
seus princípios sempre iguais. A Igreja tem a consciência de que o Espírito de
Deus se encontra inserido no âmago de seu ser, o Espírito vivo que continua
agindo e impulsionando e que jamais se transmudou adequadamente para colocar-se
à disposição da Igreja naquilo que chamamos de ministério, de princípios, de
sacramentos e de doutrina” (cf. “Não extingais o Espírito”, pág. 23). O teólogo
está a enfatizar a dimensão carismática da Igreja que não pode ser colocada em
segundo plano, no seu dinamismo histórico e missionário. Em tempos de chamada
do Papa Francisco para o estilo sinodal da Igreja, com a conscientização de que
o protagonismo deve ser atribuído ao Espírito Santo, muito tem a nos dizer o
que outros gigantes da teologia contemporânea nos ensinam sobre essa relação
entre um sínodo a ser vivido por uma Igreja Local e a abertura à ação do
Espírito Santo num processo desta magnitude e relevância para a vida da nossa
Igreja Local. É fundamental que todos os sujeitos eclesiais e organizações
arquidiocesanas estejam envoltos e abertos às moções deste Espírito que é quem
renova todas as realidades da vida da Igreja.
O momento nos é favorável. O próprio sínodo
sobre a sinodalidade nos oferece o conteúdo, a metodologia e os horizontes a
serem contemplados nesse processo. Alinhados à ‘justa hermenêutica’ conciliar
(cf. J. Ratzinger. “Relatório sobre a Fé”, pág. 65-83), o olhar para a
realidade interna da Igreja e a sua abordagem na relação com o mundo,
contemplando e envolvida com os acontecimentos da história, fortalecida pela
‘alegria do evangelho’, em nosso contexto norte-rio-grandense, a Igreja
Particular de Natal é chamada a assumir o seu dinamismo missionário, eclesial e
profético. Há uma urgência de fazer com que a ‘orquestra eclesial’ viva a
‘sinfonia do Espírito’ (cf. At 2,1-11). Faz-se mister essa abertura confiante e
orante de todos nós. A paixão pela evangelização é o que precisa fazer parte
das nossas ‘rodas de conversas’. Esse testemunho é o que nos fortalecerá e nos
credibilizará para caminharmos confiantes na presença do Senhor que está sempre
conosco (cf. Lc 24, 13-35). Temos que rezar mais essa passagem do evangelho. A
caminhada eclesial é permanente; mas não só como conhecimento teórico da pessoa
de Jesus Cristo. É experiência e reconhecimento de que precisamos estar sempre
com o Senhor, já que “o encontro com Cristo, continuamente aprofundado na
intimidade eucarística, suscita na Igreja e em cada cristão a urgência de
testemunhar e evangelizar (cf. João Paulo II. “Mane nobiscum Domine”, cap. IV,
24). O Sínodo arquidiocesano terá esse primeiro desafio, que é o de favorecer
todos os meios para que o “encontro pessoal com o nosso Mestre e Salvador”
aconteça e converta os corações dos fiéis ainda não comprometidos
autenticamente com a missão.
O nosso Sínodo pode ser coroado com um Congresso
Eucarístico, considerando e confirmando a “Eucaristia, como princípio e projeto
de ‘missão’” (cf. João Paulo II. “Mane nobiscum Domine”. Cap. IV). Como carta
apostólica programática para o ano da eucaristia, assim ensinou o pontífice de
então: “a Eucaristia oferece não apenas a força interior, mas também em
determinado sentido o projeto. Na realidade, aquela é um modo de ser que passa
de Jesus para o cristão e, através do seu testemunho, tende a irradiar-se na
sociedade e na cultura. Para que isso aconteça, é necessário que cada fiel
assimile, na meditação pessoal e comunitária, os valores que a Eucaristia
exprime, as atitudes que ela inspira, os propósitos de vida que suscita” (cf.
Idem, n. 25). A Eucaristia é a fonte e o ápice da missão da Igreja, já que,
“por sua natureza, o amor celebrado neste sacramento pede para ser comunicado a
todos. Aquilo de que o mundo tem necessidade é do amor de Deus, é de encontrar
Cristo e acreditar n'Ele. Por isso, a Eucaristia é fonte e ápice não só da vida
da Igreja, mas também da sua missão: ‘uma Igreja autenticamente eucarística é
uma Igreja missionária’” (cf. Bento XVI. Sacramentum Caritatis, n. 84).
Por fim, devemos chamar em causa o testemunho
dos nossos Protomártires do Brasil, que banharam nossas terras com a
radicalidade do seguimento de Jesus Cristo e sua fidelidade à fé. Sem dúvida, o
Espírito Santo foi a força consoladora naquele fatídico momento, no qual um
deles – Mateus Moreira – exclamou: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento!”. O
Sínodo a ser celebrado tem que nos situar eclesialmente, no hoje dos novos
tempos, na docilidade aos dons do Espírito, com os corações e mentes voltados
ao que é essencial da nossa vida cristã e eclesial. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de S. Afonso Maria de Ligório
Natal-RN
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