A Magnifica Humanitas e o Pacto Educativo

A Magnifica Humanitas e o Pacto Educativo
Pe. Matias Soares
A Igreja, na pessoa do Sumo Pontífice, o Papa Leão
XIV, apresentou ao mundo a sua primeira Carta Encíclica, a Magnífica
Humanitas. A linha transversal do texto é a Inteligência Artificial e os
seus impactos ao reconhecimento da dignidade da pessoa humana e ao bem comum.
Para isso, os critérios de discernimento ético são os princípios da Doutrina
Social da Igreja (cf. MH, cap. II). Estes são realidades vivas, que podem
colocar, não só os cristãos, como também cada homem e mulher de boa vontade,
diante das condições para um justo e compassivo agir, iluminado pelas virtudes
da razão e da força transformadora do Evangelho. Com esta Encíclica, o Papa
Leão, assim como fizera o Papa Francisco, com a Laudato Si, situa a
Igreja nas grandes questões éticas que assolam a humanidade, neste caso
específico trazendo a realidade da Inteligência Artificial como chave
hermenêutica para o centro das constelações do fenômeno antropológico
contemporâneo. É a Igreja situada historicamente, que a partir do seu
patrimônio intelectual e suas bases sapienciais, coloca a dignidade da pessoa
como fundamento de todo e qualquer avanço tecnológico.
Trago uma questão específica para o coração desta
reflexão que é o da importância da educação no ordenamento da Encíclica e a
importância ao manuseio e prudente uso destas novas maravilhas. O tema está
posto pontualmente nos parágrafos 139-147. Nestes, o Pontífice reitera, na
linha da proposta do Pacto Educativo Global, pensado pelo Papa Francisco e
reassumido por Leão, a urgência de uma Aliança Educativa para a Era Digital.
Para o atual Pontífice, “numa época em que a verdade está frequentemente
submetida a interesses e estratégias comunicativas, o mundo da comunicação
assume importância”. Por isso, temos que nos preparar educacionalmente para
recepcionar os novos desafios que acompanharão estas transformações, pois essa
realidade gera a cultura do imediato e da hiperestimulação, que nos torna
apáticos diante da necessária busca pela Verdade. Esse mesmo processo educativo
requer um tempo de maturação, de confronto com a realidade que vai além das
aparências, e um caminho de paciência, segundo o Papa Leão. A questão aqui é
fundamental, segundo o Pontífice, pois “toda tecnologia educa quem a utiliza.
Educar para o uso da IA implica, desta forma, educar para decidir quando e em que
situações não utilizar”. Citando Platão, Ele afirma que “as coisas mais
profundas e importantes só se aprendem depois de muito tempo e esforço, no
empenho em discutir com os outros para ‘friccionar’. Devemos educar-nos ao
jejum da IA e proteger os nossos jovens das promessas da máquina perfeita,
daquela subtil sedução que parece tornar o pensamento humano inútil
precisamente quando é mais necessário”(cf. MH, 140).
O documento adentra o tema com o paradigma psicológico
pontuando que “os dispositivos digitais e as redes sociais podem afetar
negativamente o sono, a atenção, a regulação emocional e as relações, sobretudo
nas idades mais vulneráveis, com consequências, por vezes, dramáticas. Ainda,
soma-se a facilidade de acesso a cenas violentas ou cruéis, que ferem a
sensibilidade; a conteúdos pornográficos e hipersexualizados; as mensagens que
balizam o corpo e a afetividade; e as propostas que normalizam comportamentos
de risco”. Esses fenômenos têm sido alastrados nas camadas sociais, sem
distinção etária, econômica ou de quaisquer outros viés. Estamos massivamente
envolvidos nestes dilemas que nos interpelam enquanto sujeitos e instituições.
Existem outras violações perpetradas via estas novas ferramentas de IA. O Papa
denuncia que “a posse prematura dum telemóvel pessoal e a sua utilização não
controlada por adultos podem acentuar fragilidades e favorecer dependências nos
adolescentes, expondo-os a dinâmicas de isolamento, de bullying e
ciberbullying, para partilhar imagens íntimas ou dados sensíveis” (cf.
Idem. 141). Neste cenário, os pais têm uma grande e árdua tarefa, no processo
de acompanhamento e discernimento. O Papa reitera, mais uma vez, na linha da
proposta do Pacto Educativo, de que “é indispensável uma aliança entre
política, instituições educativas e famílias, capaz de apoiar concretamente os
adultos na sua tarefa. Quando há o sufocamento do bem comum dos menores, é
necessário a resistência frente aos interesses das plataformas. Por isso, fazem-se
necessárias medidas legislativas urgentes, que estabeleçam limites de idade,
responsabilizem os prestadores de serviços, sem delegar delegar nas famílias o
ônus da limitação. Urge a proteção da infância e da adolescência. É importante
educar as crianças, os adolescentes e os jovens para que aprendam a identificar
as manipulações, a defender a sua dignidade e a respeitar a dos outros,
inclusivamente nos ambientes digitais (cf. MH, 142).
Neste contexto, a escola ocupa a sua centralidade,
como “local onde as as novas
gerações podem aprender a procurar e amar a verdade, a questionar-se sobre o
sentido da vida e sobre a dignidade de cada pessoa. Por isso, muitos pais,
desejosos que os filhos cresçam capazes de relações, dotados de espírito
crítico e com valores sólidos, depositam nela grandes expectativas, como aliada
preciosa na educação dos seus filhos. Cabe aos pais, efetivamente, o direito
fundamental e inalienável de escolher o tipo de instrução e formação a
transmitir aos filhos, em conformidade com as suas convicções morais, culturais
e religiosas. O mundo escolar enfrenta, hoje, alguns desafios inadiáveis”, acentua Leão (cf. MH, 143). O Papa acentua três, a saber: o
sociopolítico; o pedagógico e intelectual-sapiencial. No primeiro, a
persistência das desigualdades globais no acesso à escolaridade básica e ao
ensino superior; no segundo, as dificuldades encontradas para a atualização
permanente diante de tantas mudanças e em garantir um crescimento integral dos
alunos; e no terceiro, a construção de sistema educativo
desprovido de amor à verdade, no qual o fluxo incessante de informações
substitui o exercício de investigação, reflexão e discernimento (cf. MH, 144-46).
Enfim, ele afirma que “a Doutrina
social da Igreja convida famílias, escolas, comunidades cristãs e instituições
públicas a uma renovada aliança educativa. Ela concretiza-se quando os
princípios fundamentais se traduzem em metas educativas: educar para a
sobriedade e o sentido do limite; educar para o reconhecimento do direito do
outro e de quem virá depois de nós a usufruir dos bens que nos são doados ou
que o engenho humano disponibiliza; educar para a liberdade e a
responsabilidade; educar para o sentido da transcendência e para o bem comum. A
escola não é chamada a acompanhar a velocidade do mundo digital, mas a oferecer
aquilo que o digital, por si só, não consegue: tempo partilhado para aprender e
relações de confiança” (cf. MH, 147). Há uma “ética das virtudes” no conjunto do ensinamento, bem na linha do
que sempre foi reiterado pela ética social cristão, com seus pés na tradição
grega - razão -, romana - direito -, e semítica - fé -, que nos favoreceu com
as possibilidades teóricas e práticas para que tenhamos um olhar a futuro,
situados no presente, sem esquecer das nossas raízes culturais. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso
Maria de Ligório
Natal-RN
Capelão da UFRN