A Justiça e a Paz
A Justiça e a Paz
Pe. Matias Soares
A Arquidiocese de Natal está vivendo um
tempo de graça, com a celebração do seu primeiro Sínodo arquidiocesano. Uma
única linguagem perpassa o quotidiano das comunidades eclesiais que a compõem.
Os sujeitos eclesiais estão tendo a oportunidade de dizer com liberdade o que é
que a própria Igreja diz sobre ela mesma. O amplo processo de escuta está sendo
oportunizado aos demais agentes sociais; pois a Igreja está no mundo e é
chamada a dialogar com todos; ser hospital de campanha para todos e ter as suas
portas abertas a todos. Urge que aproveitemos esta oportunidade para
elaborarmos um projeto missionário e pastoral que nos lance a um ousado e
maturado desejo de anunciar o Evangelho. Esse anúncio, por sua vez, tem
consequências espirituais que, plenamente humanas, nos colocam em relação com o
projeto salvífico de Deus e a realização plena de cada criatura. A ação
evangelizadora da Igreja deve ser integral e integradora da dignidade humana,
com suas manifestações e efetivação da sua subjetividade.
O Papa Paulo VI afirmava que “entre evangelização e promoção humana, desenvolvimento,
libertação, existem de fato laços profundos: laços de ordem antropológica, dado
que o homem que há de ser evangelizado não é um ser abstrato, mas é sim um
ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos; laços de
ordem teológica, porque não se pode nunca dissociar o plano da criação do plano
da redenção, um e outro a abrangerem as situações bem concretas da injustiça
que há de ser combatida e da justiça a ser restaurada; laços daquela ordem
eminentemente evangélica, qual é a ordem da caridade: como se poderia,
realmente, proclamar o mandamento novo sem promover na justiça e na paz o
verdadeiro e o autêntico progresso do homem? Nós
próprios tivemos o cuidado de salientar isto mesmo, ao recordar que é
impossível aceitar "que a obra da evangelização possa ou deva negligenciar
os problemas extremamente graves, agitados sobremaneira hoje em dia, no que se
refere à justiça, à libertação, ao desenvolvimento e à paz no mundo” (EN, 31). A Igreja
Particular de Natal tem uma trajetória de compromisso social que não pode cair
no esquecimento. Negar esse profícuo dinamismo é trair um passado marcado por
sinais reluzentes e credíveis junto ao povo fiel de Deus, que conhece e é testemunha
primorosa do que já tivemos a graça de capitanear em tempos de outrora.
A Igreja tem paradigmas fundamentados na sagrada
escritura, na sua tradição viva e no seu magistério para pensar e propor ações
aos cristãos e demais homens e mulheres de boa vontade. A sua Doutrina Social é
o conjunto de proposições éticas que legitimam as pessoas para às quais ela
comunica o seus ensinamentos a assumirem o seu papel de agente de transformação
das situações e estruturas que renegam os valores do Reino de Deus. Há um
Evangelho Social que não deveria ser ignorado pelo povo de Deus. Na Doutrina
Social há a tradução dos princípios evangélicos que precisam ser aplicados às
realidades sociais; principalmente onde há a sonegação da justiça e da paz. O
Papa Bento XVI afirmava que “a esta dinâmica de caridade recebida e dada,
propõe-se dar resposta a Doutrina Social da Igreja. Tal doutrina é ‘caritas in veritate in re sociali’, ou seja, proclamação da verdade do amor de
Cristo na sociedade; é serviço da caridade, mas na verdade. Esta preserva e
exprime a força libertadora da caridade nas vicissitudes sempre novas da
história. É ao mesmo tempo verdade da fé e da razão, na distinção e,
conjuntamente, sinergia destes dois âmbitos cognitivos e morais. O desenvolvimento, o bem-estar social, uma
solução adequada dos graves problemas socioeconómicos que afligem a humanidade
precisam desta verdade”. Continua Bento com a conceituação do que é a
Doutrina Social da Igreja, apresentando a “’Caritas in veritate’ é um
princípio à volta do qual gira a Doutrina Social da Igreja, princípio que ganha
forma operativa em critérios orientadores da ação moral. Destes, desejo lembrar dois em particular,
requeridos especialmente pelo compromisso em prol do desenvolvimento numa
sociedade em vias de globalização: a justiça e o bem comum” (cf. CV, 5.6). O Pontífice com profundidade teológica nos ensinou
que a “caridade e a verdade - com acréscimo meu - são as linhas mestras da
doutrina social da Igreja (cf. CV, 2).
A dimensão social da ação missionária não pode relegar
as suas possibilidades evangélicas à introspeção eclesiástica. Esse
encurvamento sobre si mesma não ajuda no êxito prospetado pela Doutrina Social.
Esta nos coloca em situação de fronteiras e de inserção no mundo. Francisco
também nos ensina que “’os Pastores, acolhendo as contribuições das diversas
ciências, têm o direito de exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz respeito
à vida das pessoas, dado que a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção
integral de cada ser humano. Já não se
pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas
para preparar as almas para o céu. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos
seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna,
porque Ele criou todas as coisas ‘para nosso
usufruto’ (1 Tm 6, 17), para
que todos possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã
exige rever ‘especialmente tudo o que diz respeito à ordem
social e consecução do bem comum’” (cf. EG, 149). Há uma linha de transmissão do
magistério social dos pontífices, desde a Rerum Novarum (cf. Leão XIII até Leão
XIV). A doutrina social é deveras uma ferramenta insubstituível às Igrejas
Locais para que a sua voz possa ser propositiva, dialógica e profética.
Neste cenário, ocupa um lugar teológico de base “a
opção preferencial pelos miseráveis da história e da sociedade”. Podemos
colocá-la como questão transversal de todo ensinamento social da Igreja. Com o
Papa Francisco foi elevada a responsabilidade que todos somos chamar a ter em
relação aos indigentes e abandonados. Ele instituiu o “Dia Mundial do Pobre”,
não para enfatizar a pobreza, mas por reconhecimento da dignidade de cada filho
de Deus, que na sua condição ultrajada, devido as estruturas de pecado, criadas
por nós, encontra-se em situação de sofrimento e injustiça social. Citando São
João Crisóstomo ele asseverava que “o Corpo de Cristo, partido na sagrada
liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos
irmãos e irmãs mais frágeis. Continuam a
ressoar de grande atualidade estas palavras do santo bispo Crisóstomo: ‘Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que
seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir,
nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao
frio e à nudez” (Hom. in Matthaeum, 50, 3: PG 58). No pontificado de
Francisco, os pobres de fato não foram esquecidos, como fora solicitado pelo
Cardeal Hummes e ele - Francisco -, por sua vez, solicitava: “Quero uma Igreja
pobre e para os pobres”.
Tendo em vista estas considerações, em espírito
sinodal, com plena consciência da nossa missão no mundo de hoje e em nossa
realidade especificamente, como seria importante que, a partir dos ensinamentos
da Doutrina Social da Igreja, fosse constituída em nossa Igreja Particular de
Natal uma “Comissão de Justiça, Paz e Cuidado com a Casa Comum”! Sonhemos
com isto! Aqui, utopia e esperança necessitam de um abraço. A utopia não tem
ainda lugar, enquanto que a esperança já tem o seu objeto garantido pela fé.
Neste sentido, a esperança cristã vai além da utopia. Por isso, podemos
colocá-las em situação de complementaridade e adequação política e teológica.
Essa estrutura eclesial teria a grande tarefa de aplicar os princípios da
Doutrina Social da Igreja às nossas realidades pastorais, sociais e econômicas.
Teria que ser uma ‘Equipe de Peritos’ das diversas áreas: Juristas, teólogos,
filósofos, assistentes sociais, psicólogos etc.
Se queremos que o nosso Sínodo nos ajude aprimorar os nossos canais de
evangelização e de promoção humana integral, temos que dar passos qualitativos
e quantitativos também nesta direção. Essa Comissão teria que ser de “Justiça,
Paz e Cuidado com a Casa Comum”, em acolhida ao que nos é indicado com a ideia
e proposta da “Ecologia Integral” (cf. LS, cap. IV).
Por fim, vale a continua atenção à explanação em
nossas comunidades sobre o significado do Sínodo. A Igreja de Natal tem uma
oportunidade de repensarmos as nossas condições eclesiais e como estão os
nossos métodos de ação, principalmente no que concerne ao processo de escuta. O
Sínodo é para todos. Não é só para os fiéis leigos. O Papa Francisco nos deixou
um legado que caiu na mentalidade coletiva e social. O mundo passará a exigir
mais da Igreja, depois de Francisco. A força do Evangelho aplicado à realidade
social não pode mais ser renegado. As mentalidades principescas e alienadas da
história passaram a ser utópicas. Uma Comissão Arquidiocesana de Justiça, Paz e
Cuidado com a Casa Comum poderia ser um canal interessante da nossa Igreja
Local para o diálogo com os dramas da sociedade e luta à superação das
injustiças sociais. Isso seria profético. O Sínodo arquidiocesano é chamado a
nos oferecer algo novo e via à aplicação do tesouro da nossa Doutrina Social da
Igreja. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório.
Natal-RN