O método pastoral e a escuta sinodal
O método pastoral e a escuta sinodal
Pe. Matias Soares
A sinodalidade é uma proposta
performativa e qualificativa da nossa prática pastoral. A Igreja, por sua
natureza, é essencialmente comunhão. Mas, o seu estilo precisa ser sinodal. Uma
é a sua ontologia; a outra a sua existência. Enquanto uma é reconhecida a
partir da relação trinitária; a outra é o reflexo de como a Igreja é chamada a
agir. O Papa Francisco tinha total consciência quando afirmou que o “estilo da
Igreja no terceiro milênio é o da sinodalidade”; pois, num mundo marcado por
tantas polarizações e negações das alteridades, quem é cristão deve ser
sinodal. Sem a abertura ao Outro, não conseguimos ser testemunha credível do
Evangelho. Sem esse modo de operar, fechamos as portas para que o anúncio do
Reino de Deus chegue aos corações e às mentes de quem ainda não viveu o
encontro pessoal com o Senhor; e sem essa experiência “a Alegria do
Evangelho não enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram
com Jesus. E quantos se deixam salvar por Ele
são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com
Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (cf. EG, 1).
A pastoralidade, além do conteúdo querigmático e da
proclamação do reinado de Deus, exige as metodologias, que levem em conta os
muitos contextos antropológicos, com suas pontecialidades e perspectivas
diversas (cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/o-m%C3%A9todo-pastoral); ou seja, os caminhos, as
formas e sistematizações da ação evangelizadora devem ser desenvolvidos e
atualizados constantemente. Num mundo que tornou-se uma grande “aldeia global”
(cf. M. Mcluhan), a Igreja precisa reconhecer que “’Jesus caminha pelas ruas,
atravessa as praças, visita os nossos bairros, habita os lugares da nossa vida
quotidiana. Ele é o Deus próximo que caminha
com o seu povo, o Senhor da história’ (Homilia na “Plaza de Cibeles”, Madrid, 7 de junho de 2026). Também hoje o
Senhor continua a preceder-nos na história, e a Igreja, antes de mais, é
chamada a reconhecer a sua presença”(cf.https://www.vatican.va/content/leoxiv/pt/speeches/2026/giugno/documents/20260626-concistoro-straordinario),
pontuou o Papa Leão XIV. Temos que nos envolver com a dinâmica da história, sem
medos, nem subterfúgios, que nos colocam em situação de distanciamento e
auto-centrados, falando para nós mesmos, sem horizontes que precisam ser
vistos, tendo em vista um mundo, que não é mais o da cristandade e que pode ser
fecundado pela força transformadora do Evangelho.
A Igreja contempla os desafios potencializados; mas,
também as possibilidades que vão sendo reconhecidas à pregação da Verdade
testemunhada por Jesus Cristo. O que está em continuidade com o que ela, no
transcurso da sua história, foi anunciado e fazendo com que, graças a ação do
Espírito Santo, e a sua Tradição, foram sendo as fontes ao genuíno processo de
‘inculturação’ da única e mesma mensagem (cf. Hb 13,8-9). Na perenidade desta
qualificada e quantificada Verdade, conteúdo e método exigem-se mutuamente. Jesus
Cristo não dispensou os contextos e parábolas para anunciar o Reino de Deus. Era
o grande Pedagogo do Pai (cf. Mt 5,1-12). Ensinava como quem tinha
autoridade (cf. Mc 1,22.27). Favorecia as equipes; fossem os doze, ou os
setenta e dois (cf. Mt 10,5-15; Lc 10,1-24). Como Mãe e Mestra, o cuidado, a
proximidade, o olhar atento e personalizado, reconhecendo em cada pessoa a sua
identidade única e integral, a Igreja também tem a tarefa de pedagoga do
Evangelho, ensinando e conduzindo a humanidade aos valores que têm a sua fonte
no que o Senhor ensinou (cf. Mt 28,19-20). A cultura contemporânea, mais uma
vez, está carente destas verdades e sentimentos que continuam a ser sugados e
preconceituosamente renegados às urgências civilizatórias e sistêmicas do nosso
Povo.
No processo sinodal a “arte da escuta” ocupa um lugar
de primazia. A escuta do outro, da comunidade e do Espírito Santo (cf. Ap 2,7).
Num mundo triturado pela neurose coletiva, que não permite mais a atenção ao
Outro, aprimorar esta arte é um ato subversivo. Ela é emergente e deve ser
fortalecida (cf. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/666579-os-abusos-sexuais-e-a-escuta-qualificada-artigo-de-matias-soares).
Os primeiros a serem ouvidos, precisam ser os que estão nas periferias
geográficas e existenciais. No estilo sinodal ainda falhamos nessa urgência. Com
isso, perdemos a oportunidade de acolher o ‘magistério dos mais pobres e
sofridos’, que são os preferidos de Deus, sem serem exclusivos; já que o
convite à conversão ao Reino dos Céus é para todos (cf. Mc 1,14-15). Esse modo
de agir não pode ser esquecido pelas nossas distorções no exercício do ‘poder
na Igreja’, que é sempre uma questão marcada por complexidades existenciais e
estruturais. Por isso, também faz-se necessária a revisão das nossas
conjunturas, sejam formativas ou de governo, enquanto canais facilitadores
desta proximidade evangélica, que deve ter a marca do serviço e da compaixão de
cada discípulo missionário, que compõe o corpo místico de Cristo (cf. Jo
13,13-15; Lc 10,25-37; Cl 1,24).
Enquanto
Igreja Particular de Natal, considerando a sua renovação pastoral, com o olhar
ao seu passado de protagonismo e de promoção humana, com o maravilhoso
“Movimento de Natal”, que aportou um conjunto de ações diferenciadas e
integradas, porque tinha no seu coração os valores do Evangelho, sentindo com a
Igreja na sua catolicidade, que renova a sua opção de atualizar os ensinamentos
do Concílio Vaticano II, que, de acordo com o Papa Leão, estão sintetizados no
que o Papa Francisco nos deixou no seu documento programático, a “Alegria do
Evangelho”, e, por isso, a convocação dos Cardeais para um Consistório, com o
objetivo de aprofundar aquelas atualizações, somos chamados à superação das
tensões que nos são impostas na atualidade; caso assumamos tenazmente o anseio
de promover a “conversão pastoral” das nossas realidades internas, com o olhar
atento e vigilante aos novos sinais dos tempos (cf. https://cnbbne2.org.br/artigo-a-arquidiocese-de-natal-e-a-conversao-pastoral/). Sem cairmos na tentação de um ‘nominalismo
fóssil’, que nos tornará saudosistas de um passado, que pode ser farol, caso façamos uma ‘justa
hermenêutica’ desta transição epocal pela qual estamos passando, temos as
condições de lançarmos as redes para águas mais profundas (cf. Lc 5,1-11).
Enfim, assumindo com lucidez a ideia de que a
metodologia é uma construção permanente, auto-crítica e processual à ação
evangelizadora, podemos trazer para o nosso contexto pastoral os quatro
referenciais apresentados pelo Papa Leão XIV, no segundo Consistório convocado
por ele para que os Cardeais o auxiliem na condução da Igreja. Em Natal, já que
estamos vivendo o nosso primeiro sínodo arquidiocesano, podemos trazer essas
mesmas questões contemporâneas aos nossos espaços de debate, especialmente,
durante as assembleias sinodais, que à luz da ação do Espírito Santo, serão
espaços privilegiados, não só ao amadurecimento da construção do nosso
Diretório Pastoral, como também poderão ser lugares da reflexão e do
aprofundamento destes mesmos desafios conjunturais, a saber: 1- Somos
convidados a contemplar o mundo no qual a Igreja é chamada a anunciar o
Evangelho; 2- Refletirmos juntos sobre a cultura do poder e a civilização do
amor; 3- O contributo que a Igreja pode oferecer à construção do bem comum; e
4- Os caminhos seguidos à implementação do Sínodo. Temos que olhar os
canteiros nos quais devemos estar para testemunhar o Reino de Deus; mas sempre
‘sentindo com a Igreja’. A nossa metodologia pastoral tem uma história de
alegrias e esperanças. Em nossos dias, temos um rico magistério eclesial e
muitas possibilidades que podem ser utilizadas para que sejamos sal e luz para
os nossos tempos. Vamos em frente. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Natal-RN
Capelão da UFRN