A Igreja, a educação e o desenvolvimento humano integral
A Igreja, a educação e o desenvolvimento humano integral
Pe. Matias Soares
A Arquidiocese de Natal, através da pastoral universitária, a partir do ano de dois mil e vinte dois, quando a Campanha da Fraternidade teve como tema a “Fraternidade e a Educação” (cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/artigo-o-pacto-educativo-e-a-cultura-educativa) defende e luta para que em nosso Rio Grande do Norte promovamos um “Pacto Estadual pela Educação” (cf. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/645866-o-pacto-educativo-e-a-campanha-da-fraternidade-artigo-de-matias-soares). Com a chegada do nosso atual Arcebispo Metropolitano, Dom João Santos Cardoso, essa proposta foi apresentada aos representantes de instituições educativas, que foram visitadas pelo prelado em algumas ocasiões. No ensejo, tive a responsabilidade de apresentar os princípios norteadores do Pacto Educativo Global, lançado pelo saudoso e reformador, Papa Francisco.
Já nos indicara o Papa Paulo VI que os homens do nosso tempo anseiam “ser libertos da miséria, encontrar com mais segurança a subsistência, a saúde, um emprego estável; ter maior participação nas responsabilidades, excluindo qualquer opressão e situação que ofendam a sua dignidade de homens; ter maior instrução; numa palavra, realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais: tal é a aspiração dos homens de hoje, quando um grande número dentre eles está condenado a viver em condições que tornam ilusório este legítimo desejo” A proposta de um Pacto Educativo, pensado pela Igreja, passa por essa percepção do que seja desenvolvimento integral. A ideia de buscarmos uma educação integral e inclusiva para todas as pessoas é a nossa preocupação legítima à luz do Evangelho e os seus desdobramentos éticos apresentados na Doutrina Social da Igreja. A maioria do povo potiguar é carente destes direitos fundamentais e garantidores do autêntico desenvolvimento integral, sobre o qual nos fala o magistério social da Igreja. Dentre esses, o drama da educação deficitária, desde o ensino básico. Os índices são sempre negativos há anos e precisam nos interpelar, enquanto cristãos e cidadãos responsáveis pelo bem comum e a justiça social.
No Brasil e, no nosso caso específico, aqui no Rio Grande do Norte, a Igreja sempre apareceu como promotora do desenvolvimento histórico, estrutural e integral das pessoas. Em nossa realidade social e eclesial, o pináculo das suas grandes iniciativas foi o ‘Movimento de Natal’: alfabetização, cuidado das mulheres em situação de vulnerabilidade, cuidado das crianças, abrigos, maternidades, escolas paroquiais, formação para lideranças dos sindicatos rurais, hospitais, além de todas as iniciativas das ordens religiosas, desde o início da colonização do nosso sistema social. Neste cenário a educação sempre foi tida como uma braço da evangelização. Sem dúvida, as ‘Escolas Radiofônicas’ tiveram grande relevância à alfabetização dos mais pobres. Também as escolas paroquiais, que eram pensadas para os filhos dos mais pobres que não tinham acesso à educação. Aqui, recordo-me que, quando fui pároco em São José de Mipibu, tomei ciência que o Pe. Antonio Barros pensou o Pio XII - escola paroquial - para as crianças pobres que não podiam estudar, em 1948. Considerando com reconhecimento histórico, a Igreja Católica foi, e em muitos aspectos e lugares continua a ser, a maior promotora do desenvolvimento integral do ser humano do nosso estado.
Seguindo as pegadas do seu Fundador, “que dava como sinal da sua missão o anúncio da Boa Nova aos pobres, a Igreja nunca descurou a promoção humana dos povos aos quais levava a fé em Cristo. Os seus missionários construíram, não só igrejas, mas também asilos e hospitais, escolas e universidades” (cf. Populorum Progressio, 12). O que aconteceu em Natal foi o testemunho qualificado e consciente de todos os batizados que por aqui tiveram a preocupação de fazer valer o verdadeiro e profundo significado de desenvolvimento. Há quem tente renegar, de modo desleal e infeliz, essas raízes cristãs e eclesiais; mas, sem dúvida, justamente porque a proposta de desenvolvimento tida e defendida pela Igreja, não interessa a uma pequena parte da população, que sempre teve ressalvas ideológicas acerca da ideia de ‘desenvolvimento’ que a Igreja legitimamente defende e apresenta no seu magistério social.
Deste modo, a Província Eclesiástica de Natal, formada pela Arquidiocese de Natal, as Dioceses de Caicó e Mossoró, está lançando em todas as regiões do nosso RN a proposta do ‘Pacto Educativo Estadual’, a partir dos dez princípios postos pelos Papas, Francisco e Leão XIV. É a Igreja que busca a sinodalidade, não só interna, como também na sua relação com o mundo. Neste processo, queremos ser ‘pontes’, promover diálogo, chamar todas as instituições para estarmos à mesa de discussão, tendo em vista o bem comum; tomando distância da politicagem para fazermos a “melhor política” (cf. Fratelli Tutti, cap. V). Essa aliança educativa abarca a conversão de todas as instituições para pensarmos aquela ecologia humana, a partir da qual devemos pensar as outras ecologias que envolvem as pessoas (cf. Laudato Si, cap. IV). A Igreja católica no Rio Grande do Norte não tem o direito de trair essa sua vocação e não pode deixar de testemunhá-la tenazmente e profeticamente nessa delicada ‘época de mudanças’. Os caminhos indicados pelo Pacto Educativo, caso sejam seguidos por todos, é o modo contemporâneo de vivermos as proposições da Igreja como mãe e mestra para o povo potiguar, com sua emergência de um desenvolvimento integral. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Natal-RN